quarta-feira, 2 de abril de 2014

O som do coração

Talvez a noite não fosse mesmo para dormir, e sim, para cantar e saborear o gosto da vida. Me coloquei na estrada sem muitas expectativas em relação ao amanhã, apenas sentei na poltrona e adormeci pouquíssimos minutos.
Algo me deixava ligada, atenta, curiosa. 
Talvez a dúvida que seguia meus pensamentos, contribuiu para que eu pudesse me estabilizar naquele momento.
Sonhei alto e ninguém pode me julgar, olhei nos fundos de seus olhos enquanto continuava a cantar. Eu não sabia seu nome, muito menos ele o meu. Vivi em plenos minutos uma utopia sem fim de que a resposta de tudo estava em minha frente. 
Mas não botei expectativas, não pensei na sua história, muito menos na minha, mal sabia o que se acontecia ou se de fato, acontecia algo ali. Só sei que senti cada suspiro, cada borda de palavra dita, cada toque no violão, senti sua voz me chamando aos poucos para o conforto de sua alma. Você me trouxe a paz que eu necessitava para poder voltar a escrever tranquila. 
Um tipo de amor sereno, que não se encaixa a nenhum tipo de outro amor. Apenas um amor de momento, pelo momento, sobre o momento. O momento era puro amor.
Ninguém me ouviu, ninguém se importou com a minha alma sorrindo. Ninguém queria saber de minha história e minhas preocupações. Me senti liberta de todos os olhares alheios, e olhei para o som da sua alma poetizando em letras de música.

sábado, 29 de março de 2014

O dia em que chorei no sebo da cidade

Há pouco mais de um mês, migrei-me para o centro da cidade. Duas vezes por semana pela manhã, por motivos de estudo apenas. Coisa que há meses atrás estava fora de cogitação passar perto daquelas ruas. 
Duas horas de estudo. O suficiente para poder perambular o resto da manhã andando nas ruas do centro da cidade.
Neste mês estou rasgando atalho por atalho de meu mapa e construindo um caminho único para mim. Sou a perdida das ruas tentando encontrar-me em algum atalho ainda não descoberto, em alguma rua nunca antes visitada por mim. Até mesmo atualizando meu mapa e tirando as teias de minha bota que antes adormecia em meu quarto em manhãs vazias e sonolentas, cobertas pelo tédio.
Estou descobrindo o gosto da liberdade do meu caminhar, a liberdade de escolha das ruas na qual quero seguir, sem pressa nem demora, sem pressão! Estou longe dos relógios, de rostos conhecidos, de obrigações com hora marcada. Estou sendo eu mesma no meu próprio caminhar, utilizando do meu tempo livre, uma escolha para a liberdade. 
Sou minha. Apenas minha nas manhãs de segunda e quarta-feira.
Sigo apenas por intuição esperando chegar a hora do almoço e voltar para minha correria diária na faculdade. Mas até lá, me desligo da pressão rotineira e poetizo no caminho, com detalhes específicos do momento.
Me perco nostalgicamente entre as esquinas e praças vazias... aliás, não tão vazias, pois há vários senhores que sentam em grupos para relembrar os bons tempos da mocidade, discutindo sobre política e jogos de futebol.
Virei ruas e ruas até conhecer pelo menos cinco sebos bons o bastante para deliciar-me nas manhãs de segunda e quarta-feira.
Eis que em um sebo de esquina, muito velho e visivelmente vazio, entrei. O que me chamou atenção fora a forma na qual ele me chamara para dentro dele. 
Sua simplicidade de sebo bem cuidado, bem dividido entre seções, livros e cd's esquecidos entre estantes, prateleiras e gavetas empoeiradas pela saudade de bons leitores e ouvintes.
Não era um lugar encantador, muito menos nostálgico. Tinha cheiro de esquecimento e peito apertado, as pessoas que ali trabalhavam estavam fatigadas na própria rotina. 
Procurei dentre os livros, algum que poderia completar minha busca por teoria teatral, mas achei apenas livros rasgados e não muito interessantes para meu foco de estudo.
Depois de vasculhar vários livros de outras áreas, acabei desistindo de buscar algo para leitura, foquei-me em procurar CD'S para completar minhas madrugadas silenciosas. 
Eis que ao procurar na parte de MPB, encontro o CD que me fez chorar no meio do sebo, o CD que completou minha manhã me inspirando de um jeito inexplicável. 
Eu chorei em um sebo. Se contasse para alguém, dificilmente acreditariam no que iria dizer... Mas chorei ao ler um trecho de amor escrito na capa daquele objeto. 
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. Como você! Te amo! 2006 Inesquecível! Sua sempre". Obs: Com seu nome rabiscado no final. 

Posso? Posso chorar ao me deparar com um CD de Ana e Jorge ao vivo, com um trecho destes escritos logo na capa e jogado ali, num sebo, sendo vendido por R$12,00? Acho que sim, posso chorar. Um momento de amor, uma delicadeza de declaração, um calor de duas pessoas sendo vendido em um sebo simples, caído, histórico... ali... no centro da cidade.
Ninguém me viu chorar. Mas imagino a dor em que os dois corações se partiram no momento em que tal pessoa resolveu se desfazer de suas lembranças mais bonitas e doloridas no relacionamento.
Mas não me contive, comprei o CD. Como forma de perdoar aquela pessoa com coração quebrado que vendeu seu bem sentimental mais precioso em um sebo. 

Sebos são mais do que lugares com coisas baratas, são lugares com bilhões de mundos e histórias a serem redescobertas e relidas... Assim como as pequenas ruas no centro da cidade.

Termino este post com uma das músicas do CD.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

As rosas falavam o seu nome

Fale-me o que o vento não quer dizer, se o seu movimento envolve meus sentimentos embrulhados em cores no meio do papelão encostado. Sua tinta endurece meus pequenos passos inseguros seguidos de ansiedade do sabor da vida.
Descobri-me sonhadora em seus prantos, no seu balanço suave quase como uma derrapante ilusão no meio de um claro tímido abismo, um ombro que me apoiava em trajetórias opacas. A paz estava no calor de seu abraço.
Chorei versos em forma de gotas poéticas quando sua voz aliviou a minha alma, na qual aguardava fechada na gaveta esperando a sintonia passar.
Segue um ciclo do perfume das rosas que estabilizam no ar, suas mãos que instigam a segurança e o conforto de seu peito que me faz sonhar.
Segue a minha voz que fica clara que a poesia em mim sempre irá morar, custe o que custar, independente do tempo passar, em fotos e textos, meus sentimentos irei eternizar.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Talvez o destino não saiba andar

    As mãos foram feitas para ficarem no mínimo três centímetros longe. Fora o que ele me dissera por pensamento. 
    A utopia havia me arrastado para o abate do silêncio um ano após. Uma cena utópica dentro de uma própria cena. Alguns me chamariam de louca, mas fui sua em uma cena de menos de um minuto em dois anos.
Tirei minhas vestes na coxia para trocar a cena mal dita. Repetirei quantas vezes forem necessárias para que pudesse acontecer da melhor forma em palco.
    Adoeci. Pequei por não me suportar, abusei de doçura em boca diabética e me silenciei nas vestes caídas ao chão. Era sua na essência de meu próprio ser. Não sabia também, mas talvez em algum pensamento maduro, surgira tal admiração."Eu te amo". Ouvi, de uma cena ridícula de pequenos segundos acumulados, onde na verdade fui colocada nos últimos segundos de finalização de roteiro, mas ouvi. E pela primeira vez senti-me sendo alguma personagem de verdade. E percebi que até uma pequena personagem com 30 segundos de vida tinha mais coragem do que eu mesma ao te ver.
    Tive a oportunidade de segurar suas mãos. "Eu te admiro". Eternizei meu único sentimento dito ali, depois não mais arrisquei. Calei-me em pleno mês de julho.Mal te conhecia, mas tanto tinha a dizer.
Sentei no abismo da escada circular: Nunca seremos nada, a não ser personagens em cena. Ele o homem, eu o coro. Assim pensei, meses antes.
    O coro ajuda no volume dos pensamentos de seu próprio ser. Não serei a mulher, nem a segunda mulher, serei seu pensamento, sua utopia gritada de longe, do balcão por trás das cortinas, antes mesmo da cena oportuna debaixo do guarda-chuva.
    Meu homem estava ao vento, e por lá sempre ficou e ficará. Corroí minhas lembranças retomei a cena e pus-me a lembrar .
    Suspirei alguns instantes perto de seu rosto, atolei-me de sintonia em nossos longos abraços, gritei de agonia ao te ver partir. Suspeitei estar no lugar errado, me culpei por não ter agido nos momentos a sós em silêncio.
    Caminhamos numa longa viagem abrindo nossos peitos de histórias fracassadas, você ali conheceu minha vida. Ali abriu-se um novo caminho.
    Andamos ruas e ruas, Maringá chamava nosso nome, que tal se nos refugiarmos para este sobrado? Pequeno, barato, bom lugar para se morar. Momento em que paralisei e sonhei novamente alguns bons minutos. 
Ridículo, eu era apenas uma menina. Mas pensava longe, pensava no começo de algo na qual eu estava disposta a entrar.
    Mas engoli meu sentimento em busca de algo maior, e me pus a arriscar algo longe dali.
    Faço teatro, cuido do teatro e a partir dele, vou me aperfeiçoando na vida. Era apenas uma criança em um ônibus lotado, cheio de dúvidas, crises, e novidades acumuladas.
    Estava sendo recheada pela confiança alheia. E assim, me dispus nos próximos meses. 
    Seu suor contaminava minha pele, sua risada invadia meu ouvidos, o teu   sorriso me forçava a me alegrar em dias tristes. 
O seu abraço foi o mais sincero até o último segundo apertado. "Chega" assim era dito. Aceitava.Mesmo eu querendo mais, separava por bom senso.
Aceitava porque eu não podia mais, não podia ser mais, deveria ser menos. Talvez eu estivesse em busca de algo não muito recíproco, talvez tivesse que ser menos, talvez um passo pra trás eu haveria de dar.Em silêncio, perturbada eu ficava.
Talvez eu devesse conversar mais com a Rosa, ela sim deveria saber o que dizer, ou talvez não. Já que a segunda mulher arrancara seu coração e fora embora. 
Dei minha chance, você deu a sua. Fugi ao sentir sua barba em meu pescoço. 
Era muita loucura para aquela noite insana, sentia você, sentia seus braços, suas mãos. Mas a sua barba. Sua. Me causou arrepios, me mostrou a realidade escondida, me mostrou que eu era fraca o suficiente pra suportar aquilo. Me mostrou que eu era a criança escondida que não estava pronta pra desafiar o que você finalmente parecia ter em mãos.
Era tanta dúvida, era tanta certeza ao mesmo tempo, que corri.
Corri para não voltar, para não jogar tudo pro ar, fugi para dar tempo de pensar numa solução. No último minuto, no último suspiro, logo depois que desisti da sua escolha, sua barba aparece em mim ressaltando o que eu já tinha certeza que iria esquecer.Não era justo, não foi justo. Logo agora que minha personagem abriu a mão de arriscar, logo agora que estava livre que um pensamento utópico infantil, sua barba me chamou no canto e me enfeitiçou nos meses acumulados.
    "Eles combinam, faça algo, não pode dar em nada". Engoli a seco as palavras mesmo suspirando perfume alheio. Confiei em um estranho meus sentimentos guardados. O que eu fazia ali? Não sei. Só sei que me pus a desabafar com ombros estranhos no meio de dezenas de luzes coloridas. 
Era talvez o fim de um começo nunca começado. As cortinas fechavam.
No dia seguinte, não houve abraço, não houve distância de três centímetros das mãos, não houve olhares trocados. Houve apenas o meu próprio silêncio por ti ignorado.

"Acho que já deu, não é? Você não sabe o que você quer da sua vida. Gosto de você,mas não posso te esperar pra sempre."

Sua barba será sempre a culpada por reativar meu coração.